18 Maio, 2007

Livro "Alma de Viajante"

O projecto Olhares de um Andarilho continua parado, mas agora, mais do que nunca, voltou ao topo da minha lista de prioridades. Por enquanto, a todos os que por aqui passam aproveito para informar do lançamento do livro "Alma de Viajante", com o relato das crónicas de uma viagem à volta do mundo publicadas em Portugal, semanalmente, nas páginas do jornal Público.

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04 Novembro, 2006

Volto já

As minhas desculpas, a quem seguia atentamente este blog, pela falta de novas fotos com histórias. Conto em breve retomar o prazer de as escrever. Até já!

06 Junho, 2006

Tijolo


Galle, Sri Lanka

Talvez seja o que resta do tecto da sala aquilo em que o menino está sentado. A cama da avó querida, desaparecida. Um armário da cozinha, onde a mãe preparava deliciosos repastos com o que o mar diariamente lhes oferecia. Talvez o soalho do próprio quarto, que partilhava com duas das irmãs que hoje não estão lá para o levar à escola. Um pedaço do que resta da sua casa, enfim, como o tijolo que segura nas mãos. Sabe que este o abrigou da chuva das monções, que o protegeu dos ventos invernais, que resistiu à brutalidade das ondas. Talvez não tenha total noção do que se passa, mas sabe que o pai lhe pediu para procurar tijolos intactos, por entre o pó do que resta das suas vidas. Sabe que a família encurtou, que à noite vê as estrelas do que foi a sua cama, que tem muita sede, alguma fome, nenhuma roupa. Talvez saiba que das suas mãos desliza algo que fará parte do seu novo lar. Talvez por isso tenha forças. E sorria. Apesar de tudo. Apesar do nada em que a sua família mergulhou.


Nota do autor: Galle, no sul do Sri Lanka, foi uma das regiões mais castigadas pelo maremoto de Dezembro de 2004.

05 Maio, 2006

Esse teu olhar


Baucau, Timor-Leste

Olhas-me nos olhos e eu fico sem graça. As palavras que me dizes, sem falares, atordoam-me sempre que me olhas, assim, nos olhos. Os teus amigos pulam à nossa volta, riem com os seus imaculados dentes brancos, perseguem uma bola rota estrada acima, galhofam com o malai. Mas tu olhas-me nos olhos e eu fico sem graça. És linda, pequena ternura de Baucau! És linda! Não sei o teu nome, tampouco conheço a tua voz. Sei apenas que o vermelho no teu braço não é sangue, que os tempos agora são outros. Imagino que tenhas uma fé inabalável no futuro do teu país, que sejas tão pobre como o resto do teu povo, que anseies por um Timor-Leste próspero e sem armas. Talvez sonhes até ser mulher estudada, mãe de muitos olhos negros, feliz. Um dia hei-de voltar, ternura, nem que velho e cansado esteja, à tua aldeia feita cidade. Hei-de sorrir ao ver esses caracóis esvoaçarem ao vento, soltos e livres. Hei-de cruzar-me contigo nessa ladeira, encontrar-te mulher estudada, mãe de muitos olhos negros, feliz. E hei-de saber que és tu, porque um olhar assim não se esquece.

27 Abril, 2006

Destino: futuro


Minas do Cerro Rico, Potosí, Bolívia

O autocarro afasta-se. Os homens ignoram-no, os porcos chafurdam na lama como se nada fosse. Os homens são novos, mas sabem que não vão durar muito tempo. São mineiros, quase não vêem a luz do dia, respiram o ar irrespirável das galerias, aguentam temperaturas diabólicas de um inferno terreno. Mascam folhas de coca para se alimentarem, enquanto sonham encontrar um filão que os torne ricos, que os tire das minas, que os deixe viver. É esse o seu destino, sonhar, dignos, até ao fim dos seus dias. Os homens despedem-se das mulheres antes da enésima jornada no subsolo, os porcos chafurdam na lama. O autocarro afasta-se. Não parou sequer em Cerro Rico.

Nota do autor: a esperança média de vida dos mineiros que trabalham em Cerro Rico ronda os 35 anos.

18 Abril, 2006

Moldura branca


Dili, Timor-Leste

Talvez nem saibam explicar o motivo que os trouxe aqui. Vieram engalanados com as suas vestes de cerimónia, os colares exuberantes, as belas e coloridas salendas, os tradicionais instrumentos e os machados de guerra. Dir-se-ia que estão felizes, os homens, mas há algo que os atormenta. Algo que lhes consome as energias de crentes fervorosos, que lhes parece um pecaminoso absurdo. Talvez tenham sido guerrilheiros, outrora, nas montanhas. Talvez o alento, nesses tempos de penúria e sofrimento, lhes tenha advido de vozes sopradas dos céus. E como os ajudaram, essas vozes! E como os defenderam, essas vozes! Talvez por isso se tenham habituado a ouvi-las com inquestionável deferência. Talvez seja, até, por isso, que aqui estão. Desde que aqui chegaram, já rezaram por inequívoca convicção, já gritaram palavras de ordem por ordem de outros, já cantaram e dançaram para ajudar o tempo a passar. Estão agora em repouso, longe do palanque e do megafone, emoldurados pelo caixilho branco da janela da igreja. O quadro não é perfeito, felizmente. Dois deles têm os pés fora da moldura. O outro, está já totalmente desenquadrado com a ditadura rectangular do caixilho branco.


Nota do autor: em Abril/Maio de 2005, a Igreja Católica de Timor-Leste organizou uma manifestação, por “tempo indeterminado”, no centro de Dili. Forneceram transporte gratuito para levar os devotos timorenses das aldeias até Dili, cortaram umas das principais avenidas da capital durante vários dias, e exigiram a demissão do Primeiro-ministro, Mari Alkatiri. Alkatiri pretendia tornar facultativo o ensino da religião católica nas escolas do país.

15 Abril, 2006

A menina das nuvens


Aldeia próxima de Angkor Wat, Camboja

É ainda uma menina. Gosta de brincar, de andar, de correr desajeitadamente pelos caminhos de terra batida em torno da aldeia. A mãe ralha-lhe pela imundice no vestido de boneca, pelo castanho da terra nas mãos e na boca, por sair de casa sem avisar. Mas ela é apenas uma menina, gosta de brincar, de andar, de acompanhar as correrias dos miúdos mais velhos quando eles desatam aos saltos pela floresta. Não se importa quando cai, quando esmurra os joelhos de petiza, quando juntos se aventuram para além dos trilhos marcados pelos adultos e se afastam da aldeia. É quando mais se divertem, aliás. A mãe não se importa que ela vá, só lhe ordena que leve consigo o ramo, sempre, preso às nuvens lá no alto. Diz que ele a orientará pela floresta, que a impedirá de pisar uma coisa ruim. Não entende a mãe, mas sabe que não gosta do ramo. Tem alturas que gostaria de correr atrás de bicharocos, de saltar sobre folhas secas, de esgravatar a terra húmida e ele puxa-a, bruscamente, para trás. O ramo é um chato, não percebe porque tem de ser guiada pelas nuvens, mas a mãe assusta-a. Diz que se ela o largar, um dia deixará de poder correr. Que ouvirá um estrondo tão grande, tão grande como aquele que um dia a fez chorar muito, muito. Que lhe pode acontecer como ao menino amigo da palhota vizinha, que ela encontra, desde esse dia, com uma perna pequenina e um sorriso triste. Às vezes acha que a mãe só a quer assustar porque ela se suja muito quando brinca com a terra. Não entende a mãe e só sabe que o ramo é um chato. Mas nunca o larga. Deixa sempre que as nuvens lhe indiquem o caminho. Pelo sim pelo não. Porque é ainda uma menina, e adora correr na floresta.


Nota do autor: segundo a base de dados Cambodia Mine Victims Information System (CMVIS) foram contabilizados em solo cambojano, apenas durante o ano de 2005, 862 acidentes com minas terrestres e outros engenhos explosivos não detonados. Cerca de metade vitimaram crianças.

13 Abril, 2006

Esperança, dois dias depois...


Praia de Patong, Phuket, Tailândia, 28 de Dezembro de 2004

Não foi a primeira vez que dormiu ao relento, é certo, mas nota que a praia acordou diferente. Não sabe explicar, mas repara que o mar está de novo calmo, sem ondas. Nota até que recuperou o azul habitual, lindo, mais lindo que o branco da espuma revoltosa, mais lindo que o vazio invulgar de uma praia sem mar. Não se lembra como veio aqui parar. Pensa que não é costume estar sozinho, sem par, sem dono. Olha em redor e observa que a praia se encontra deserta. Estranhamente deserta. E o barco, como não tinha ainda visto o barco no areal? Jura que já aqui passou centenas de vezes e nunca o casco ali estivera. Pára para reflectir. Sente-se confuso. Afasta maus espíritos ao confirmar, com o olhar, a serenidade das águas. Por momentos sorri, ao recordar a sua companheira de todas as horas, desde o tempo da prateleira da lojinha do bairro, nas vezes em que passeavam juntos, ela sempre à sua direita, um hábito que adquiriram não sabe bem desde quando. Onde estará ela? Está certo que há-de voltar, não o iria abandonar assim, repentinamente, sem uma palavra. Decide aguardar. Sente-se melhor. Sorri ao pensar que apenas se desencontraram temporariamente. Invade-o a esperança. Que o mar hoje está calmo, sem ondas.

11 Abril, 2006

Lua cheia


Porto Seguro, Bahia, Brasil

É Inverno. O som das ondas do mar retalha o silêncio. Não há outros ruídos. As luzes da cabana estão apagadas. A iluminação do areal fica por conta da lua e das velas que o vento não consegue extinguir. Prepara-se um churrasco brasileiro com vinho português. Os pés calcorreiam a areia húmida da praia, as mãos seguram um copo de tinto, o corpo deita-se, depois senta-se. E os olhos dela fitam os céus, como se a lua lhe pertencesse.

09 Abril, 2006

O velho dos arrozais


Yangshuo, província de Guangxi, China

Faltam poucas semanas para a colheita do arroz e o velho sabe disso. A sua vida é saber dessas coisas, molhar-se no solo alagado, ver crescer as espiguilhas de arroz até que o seu próprio corpo nelas se esconda enquanto vagueia pelo campo cultivado. Passar os dias entre o castanho de um chão encharcado, o verde de um campo viçoso e o amarelado da época pós colheita. Ao sol. Não é por opção que a sua pele é morena, num país onde a brancura é sinal de beleza. De estatuto social. Porque o trabalho ao relento é para os pobres. Para aqueles a quem a vida enrugou o rosto e calejou as mãos. Para camponeses, como o velho dos arrozais. Ele sorri para o intruso. Talvez já saiba que a colheita será boa.